sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Agronegócio ameaça biodiversidade do Cerrado

No Dia do Cerrado, 11 de setembro, comunidades tradicionais e movimentos denunciam impacto da monocultura e da pecuária sobre o bioma
Gleiceani Nogueira - Asacom
11/09/2013
Área devastada no Norte de Minas para implantação do maior projeto público de irrigação em área contínua da América Latina, o projeto Jaíba | Foto: Josy Manhães
Conhecida como a savana brasileira, o Cerrado é o segundo maior bioma do país e estende-se por mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Situa-se majoritariamente na área central do Brasil e ocupa uma parte do Semiárido, especificamente no Norte de Minas Gerais, no oeste baiano, no Piauí e no Maranhão. É um bioma de rica biodiversidade com mais 12 mil espécies vegetais e 320 mil de animais, grande parte endêmicas. Curiosamente, apenas 0,85% do bioma encontra-se oficialmente em unidades de conservação.
A riqueza de seus recursos naturais atrai também a atenção de empresas ligadas ao agronegócio, colocando em risco os territórios de agricultores/as e comunidades tradicionais que vivem no Cerrado. Por isso, o Dia do Cerrado, comemorado nesta quarta-feira (11 de setembro), é para as comunidades tradicionais e movimentos sociais um dia de luta e denúncia contra as ameaças socioambientais das quais o bioma vem sofrendo.
De acordo a WWF-Brasil, aproximadamente 40% do Cerrado conserva parcialmente suas características iniciais e outros 40% já as perderam totalmente. Somente 19,15% corresponde a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado.
Segundo o integrante da Rede Cerrado e da Articulação Semiárido Mineiro (ASA Minas), Carlos Dayrell, a monocultura - sistema agrícola que desmata grandes extensões de vegetação nativa e utiliza grandes quantidades de insumos químicos e agrotóxicos - é uma das principais ameaças ao bioma.
“Quando a gente fala da monocultura a gente está falando do eucalipto, da soja, da cana-de-açúcar, a gente tá falando também das grandes pastagens. Junto com esses processos também há mineração. Algumas áreas que até então estavam intocadas, até porque são regiões de serra, agora têm sido alvo das empresas, em particular na região do Pará e do Norte de Minas”, explica.
Cerrado garante segurança alimentar e renda para comunidades tradicionais que lutam pela regularização de suas terras | Foto: João R. Ripper
Ele também chama a atenção para o encurralamento das comunidades tradicionais devido à expansão dos grandes empreendimentos. “Normalmente as comunidades tradicionais vivem nas grotas, nas beiras dos córregos e usam as chapadas, as áreas mais altas, para a solta dos animais, para a coleta das frutas. Então essas áreas, quando chegam os grandes investimentos, eles ocupam logo e as comunidades ficam encurraladas nas beiras dos córregos e ficam concentradas em poucas áreas”.
Além da questão da terra, existem outras estratégias que podem garantir mais segurança paras as famílias como a criação de Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS), Reservas Extrativistas (RESEX) e assentados agroextrativistas. Segundo ele, essas questões já foram apresentadas ao governo, mas o processo tem sido muito demorado. “Para você ter uma ideia, nós estamos com uma demanda de oito Resex, já tem mais de seis anos. Talvez uma primeira seja criada este ano. Estamos em vista também de criar o primeiro assentamento agroextrativista em área de Cerrado. Isso talvez aconteça nesta semana ou na próxima”, destaca Dayrell.
Esse processo de encurralamento gera um impacto direto no processo de reprodução social das comunidades, que acabam sendo expulsas de seus territórios pela falta de regularização de seus territórios. Por isso, o reconhecimento de suas terras é um dos principais pleitos dos povos que habitam o Cerrado como quilombolas, indígenas e geraizeiros. (Veja aqui as reivindicações do Movimenro Geraizeiro)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Barragem subterrânea potencializa lençol freático e oferece sustentabilidade para a produção familiar

Estrutura de captação de água de chuva melhora a vida e a terra de agricultor no sertão paraibano
Eudes Costa - Comunicador popular da ASA
São Francisco - PB

Agricultor mostra plantação de batatas | Foto: Eudes Costa
Imaginar um cenário de tristeza, de terra rachada, falta de alimento, crianças e mulheres percorrendo longas veredas com a lata d’água na cabeça, ou um/a agricultor/a tangendo um jumentinho com duas ancoretas. Uma situação desesperadora por água. Essas são cenas formadas há anos no imaginário popular do Semiárido e reproduzidas pela grande mídia ou pela indústria da seca. Mas existe outra realidade, com imagens positivas.

Poucas décadas atrás, praticamente durante 13 anos de trajetória, uma ação transformadora aconteceu na vida de milhares de famílias agricultoras do nordeste. Através de processos participativos e sociais voltados para a valorização das pessoas, da cultura e dos recursos naturais, o reconhecimento da capacidade inalterada do sertanejo, que demonstra força e resistência em viver de forma mais digna na sua terra, ganharam visibilidade. Essa transformação surgiu com as construções de tecnologias de captação de águas de chuvas, implantadas pelo Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semiárido, da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). 
Pela manhã, José Fábio faz a primeira limpa  no roçado de feijão | Foto: Eudes Costa


Dessa forma, algumas famílias começaram a mostrar a riqueza e a beleza na sua maneira de trabalhar com essas implementações, descobrindo novas alternativas, que se contrapõem a ideia de que a região semiárida é inviável.

Um grande exemplo de viabilidade do Semiárido está na comunidade Prata, no município de São Francisco, no alto sertão da Paraiba, onde mora o casal de agricultores José Fábio Pereira, de 33 anos, e Marileide da Costa, de 30, além da filha do casal, Maria Isabela, de quatro anos.

Com a barragem subterrânea que conquistou junto ao Programa Uma Terra e Duas (P1+2) da ASA, construída em área de baixio, o agricultor tem mantido sua produção agrícola ativa e  aproveitado ao máximo os benefícios que a barragem oferece para sua propriedade; uma delas, a segurança hídrica.
A alegria de José Fábio é constante com a estrutura que tem na sua propriedade. No entanto, a felicidade aumentou ainda mais depois que descobriu que a implementação melhorou o lençol freático da terra. O agricultor percebeu que a água de um velho poço amazonas (cacimbão) aumentou significantemente, e, então, passou a utilizar essa vantagem para intensificar suas plantações, num tempo em que as águas aparecem escassas.

José Fábio alega que antigamente o cacimbão só mantinha sua vitalidade quando eram liberadas as comportas do açude. A situação se agravou depois que houve o abastecimento da comunidade e, com o desperdício, as águas secaram. “A barragem veio em boa hora, foi uma obra bem aplicada, se não fosse ela, hoje eu não teria essa água pra irrigar.” afirma Fábio.

Ao longo deste ano, mesmo com a média pluviométrica de apenas 300 milímetros, Fábio manteve um roçado de salvação através da irrigação por microaspersão, em que mantém a produção de batata, milho, feijão, palma e alguns canteiros de hortaliças. Em um de seus roçados de feijão, o agricultor colheu aproximadamente 12 sacos do legume. Nesse período de estiagem são poucos os cacimbões na região que mantém a mesma capacidade, o dele se manteve num nível que lhe permite irrigar e ainda segurar o abastecimento de sua casa.

A atenção do agricultor está também em cuidar da água que resta, reparando certo gasto que poderia ser evitado, teve a ideia de mudar de horário para irrigar os plantios, trocou o dia pela noite, aproveitando as baixas temperaturas e ganhando mais produtividade, sem que haja forte evaporação, nessa situação, comprovou que o feijão carrega mais, não mucha e nem dá insetos.

Outro jeito encontrado para conservar a água abaixo do subsolo, o agricultor deixa o capim e o mato crescer por toda extensão da barragem. “Se não fosse essa barragem hoje eu estaria pegando água no carro pipa, e só daria para o consumo humano, e plantar ficaria só na vontade, sem poder” destaca.

Criação de ovelhas sendo levadas para manga | Foto: Eudes Costa
O trabalho no sítio começa cedinho, antes que a barra do dia venha clarear. O primeiro canto do galo, que se espalha no silêncio da manhã e se mistura com o tilintar das vasilhas, indica que é hora de tirar o leite das vacas. Depois já é hora de fazer uma limpa no roçado, em seguida, soltar na manga as ovelhas presas no aprisco. A criação desses animais é uma importante fonte de renda da família. As ovelhas servem para o autoconsumo, e quando surge uma necessidade financeira, José Fábio se desfaz de um destes animais.

Fábio não tinha o hábito de contabilizar o quanto ganhava em sua atividade. A partir deste ano ele teve a curiosidade de calcular a produção. Fazendo uma média, desde que conquistou a barragem subterrânea, conseguiu seis mil reais com a primeira horta, onde vendeu alface, coentro, pimentão, batata, macaxeira e feijão. Deste plantio, o agricultor ainda tem guardado uma boa reserva de feijão para vender ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Com otimismo, zelo e vigilância para manter a barragem em pleno vigor, o agricultor redobra seus cuidados, a ponto de fazer sempre ótimas previsões. José Fábio está satisfeito com a atividade sustentável, em virtude da surpreendente maneira com que a tecnologia vem fortalecendo as veias da terra e potencializando e guardando a água no seu cacimbão.

Com tudo ocorrendo da melhor forma possível, os desejos do agricultor se ampliam. Ao longe, pensa nos próximos anos, com um bom inverno, onde possa se preparar e expandir a plantação para as frutíferas, aumentar o plantio da ração animal, e permanecer desenvolvendo suas culturas, o que já lhe garante segurança alimentar.

domingo, 8 de setembro de 2013

Caravana Agroecológica e Cultural percorrerá regiões de conflitos da Chapada do Apodi

erlândio Moreira - Comunicador popular da ASA

 
Famílias agricultoras da Chapada do Apodi acampam na região. | Foto: Site da ANA
A parte da Chapada do Apodi que fica no Rio Grande do Norte – uma das regiões do Brasil cujas famílias agricultoras agroecológicas sofrem pressão para sair de suas terras para que estas sejam ocupadas por uma agricultura não sustentável, à base de agrotóxicos e voltada para a exportação – vai receber a Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi, entre os dias 23 e 26 de outubro, em preparação ao III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).
Organizações sociais do Território Sertão do Apodi, ligadas à Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), e parceiros locais estão envolvidos na realização da caravana, que percorrerá diversos municípios da região e reunirá cerca de 300 pessoas no Nordeste e de outras regiões do País, além da população dos municípios visitados.

A caravana tem o objetivo de mobilizar organizações e movimentos do território, promovendo o intercâmbio de experiências e fortalecer as redes locais. Além disso, a Caravana rumo ao III ENA torna-se, para a Chapada do Apodi, um espaço de socialização do potencial das experiências agroecológicas e de acusação do modelo do agronegócio, que destrói a autonomia da agricultura camponesa no território.

A Chapada do Apodi é alvo de grandes ameaças em decorrência do Projeto de Perímetro Irrigado do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), que vai expulsar mais de seis mil agricultores/as de suas terras para favorecer a implantação de cinco empresas do agronegócio. “Como é triste ver terra sem gente e gente sem terra. Não podemos deixar que este projeto se instale e destrua nossa produção viva em que mulheres e homens convivem bem com a natureza e produzem alimentos limpos de agrotóxico”, destaca Conceição Dantas, representante da Marcha Mundial de Mulheres.

Entre as rotas planejadas para a caravana, uma passará em Limoeiro do Norte, no Ceará, e Ipanguaçu, no Rio Grande do Norte, onde o perímetro irrigado já está implantado. “Não podemos esquecer os que estão sofrendo com o projeto da morte dentro e fora de Apodi”, ressalta o presidente do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de (STTR) de Apodi, Edilson Neto.
As caravanas territoriais em preparação ao III ENA serão realizadas em todas as regiões do País e funcionarão como exercícios de análise coletiva visando contrastar esses padrões opostos de desenvolvimento rural. A previsão é que as caravanas das regiões Amazônia, Sul, Sudeste e Cerrado aconteçam nos meses de outubro e novembro.
  

Seminário debate modelo de agricultura não sustentável do Projeto da Chapada do Apodi| Foto: Camila Paula/CF8
Programação - A caravana da Chapada do Apodi terá início no município de Mossoró, onde será realizada a abertura oficial do evento, com momentos culturais, discussão política e apresentação dos cronogramas das quatro rotas. O encerramento será no acampamento Edivan Pinto, no município de Apodi, onde estão acampadas mais de mil famílias em resistência ao Perímetro Irrigado da Chapada. Na ocasião, estão previstas apresentações de teatros, de contadores de história e outros artistas, e danças regionais. Haverá distribuição de material informativo, conversas com as comunidades, visitas à propriedades agroecológicas e aos grandes projetos do agronegócio. Rodas de capoeira, samba, debates e visitas a parques ecológicos também estão na programação.
ENA - O Encontro Nacional de Agroecologia, previsto para 2014, é um momento de culminância do processo de mobilização dos agricultores e organizações que trabalham na promoção da agroecologia em todo o Brasil. Celebração, troca de experiências, apresentação para a sociedade e governos das inquietações e propostas do movimento agroecológico fazem parte do encontro.
O I ENA ocorreu em 2002, no Rio de Janeiro, e serviu para mapear as experiências que estavam espalhadas pelo Brasil. Em 2006, o II ENA foi realizado no Recife, onde houve a consolidação e apresentação das propostas que a ANA tem para que as políticas públicas incorporem o enfoque agroecológico. O III ENA tem como pauta principal evidenciar para a sociedade que a agroecologia é importante para a produção de alimentos saudáveis, preservação da água, das florestas e para a valorização da agricultura familiar e trabalho digno no campo.