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| Jovem morto no Rio de Janeiro em 2012. Imagem: Wikimedia |
São Paulo – Vivemos em um país em guerra,
mesmo que não declarada. Esta é uma das conclusões possíveis a partir
da leitura do estudo Mapa da Violência 2013, realizado pelo professor
Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências
Sociais e divulgado hoje. Cerca de 170 mil pessoas foram mortas nos
12 maiores conflitos no globo entre 2004 e 2007 (veja tabela abaixo).
No Brasil, mais de 200 mil perderam a vida somente entre 2008 e 2011.
Isto
tudo sem que o país viva "disputas territoriais, movimentos
emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou
étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristas", lembra o
levantamento.
Há dois anos -
época dos últimos dados disponíveis - foram registradas mais de 50 mil
mortes, o que confere ao Brasil uma taxa de 27,1 homicídios para cada
100 mil brasileiros. Desse total, cerca de 40% (18 mil pessoas) eram
jovens entre 15 e 24 anos.
O número de assassinatos no Brasil é
274 vezes maior do que em Hong Kong, 137 vezes maior do que na
Inglaterra e 91 vezes maior do que na Sérvia, segundo o estudo divulgado
hoje.
Veja abaixo o total de mortes nas maiores zonas de conflito do planeta na década passada:
"São números
tão altos que torna-se difícil, ou quase impossível, elaborar uma imagem
mental, uma representação de sua magnitude e significação", afirma
Jacobo, autor da pesquisa.
Segundo o
sociólogo, a cultura da violência (caracterizada pelo hábito de resolver
conflitos por meio da agressão), a certeza da impunidade (apenas 4% dos
assassinos vão para cadeia) e a indiferença da sociedade com o grande
número de mortes estão entre as causas do fenômeno. "A vida humana vale
muito pouco", resume o pesquisador, que é argentino.
É preciso
observar que a magnitude da violência vista no país não tem equivalência
nas nações que possuem dimensões e populações maiores ou similares à
brasileira. Só o México chega perto.
De acordo com o
estudo, o número de assassinatos no país cresceu mais de 200% entre
1980 e 2011. Se considerarmos apenas as mortes violentas entre jovens no
mesmo período, o aumento é ainda maior: 326%
Para Jacobo, a tendência nos próximos anos é que grandes cidades como Rio e São Pauloatinjam
um nível estável de violência se continuarem investindo em segurança
pública – podendo reduzir ainda mais essas taxas com esforços
concentrados em áreas como saúde e educação.
Por outro lado,
o sociólogo adverte que se nada for feito em regiões onde o número de
assassinatos vem crescendo, como Pará e Alagoas, um novo aumento nos
índices nacionais de violência poderá ser registrado.
Num levantamento sobre o tema com 89 países, o Brasil fica em sétimo lugar.
"O quadro
comparativo internacional já foi bem pior para o Brasil", revela Jacobo.
Segundo ele, o país era o segundo colocado do ranking da morte em 1999,
atrás apenas da Colômbia. De lá para cá, a taxa de homicídios no país
não parou de crescer, embora o Brasil tenha perdido posições na lista.
O sociólogo
explica que esse "recuo relativo" se deveu "ao crescimento explosivo da
violência em vários outros países do mundo", como El Salvador, Guatemala
e Venezuela.
Saulo Pereira Guimarães
Exame