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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
ASA Pernambuco participa de mesa de debate na Conferência Estadual de Convivência com o Semiárido
Por Daniel Ferreira - Assessoria de Comunicação da Diocese de Pesqueira
No segundo dia da Conferência Estadual de Convivência com o Semiárido, a secretária executiva da Cáritas Diocesana de Pesqueira e coordenadora executiva da ASA pelo Estado de Pernambuco, Neilda Pereira, participou da mesa temática “Análise das Conferências Regionais: processo e propostas” na manhã dessa terça-feira (10) no auditório da Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire). Para um público de mais de 300 pessoas, Neilda apresentou as principais contribuições e demandas para a agricultura familiar agroecológica na perspectiva da convivência com o Semiárido e ainda resgatou a participação da sociedade civil nos debates. Além dela, estiveram na mesa o secretário estadual de Agricultura e Reforma Agrária, Aldo Santos, secretário executivo da Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado, Maurício Cruz, e o representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), César de Oliveira.
Antes da conferência estadual, foram realizadas cinco conferências regionais no Estado (Sertão Central, do São Francisco, Araripe, Itaparica, Moxotó, Pajeú e Agreste Meridional Central e Setentrional), reunindo mais de mil pessoas. Nesses encontros os participantes formularam propostas de ações que contribuirão para o primeiro Plano Estadual de Convivência com o Semiárido em Pernambuco. Em sua fala, o secretário Aldo Santos ressaltou a importância do Plano Estadual de Convivência com o Semiárido. “A ideia é que nas próximas secas a população atravesse a estiagem com menos dificuldades. Quem sabe se no futuro não tenhamos um fundo específico para as ações de convivência. Não estamos querendo fazer ações de governo, mas sim ações de Estado - uma política de convivência com ações estruturantes”, reforçou.
“Antes as políticas eram pensadas dentro dos gabinetes, sem a participação da população. Esse plano estadual teve o envolvimento e a mobilização de diversos atores, principalmente a contribuição da sociedade civil. Precisamos investir no controle social, para que de fato as ações aconteçam e contribua para que as pessoas vivam com dignidade no semiárido pernambucano.”, destacou Neilda Pereira.
Segundo Neilda, apenas 14 municípios (de 122 cidades do Semiárido) elaboraram seus planos municipais de convivência. “É muito importante que cada município tenha seu plano, pois é dentro do município que tudo acontece. É necessário que as pessoas se vejam e se sintam parte desse processo”, enfatizou. Após a explanação da mesa, abriu para o debate e intervenções do público. Esse momento serviu para os delegados intervirem na discussão com perguntas e proposições.
O secretário municipal de agricultura do município de Ouricuri, Paulo Pedro, chamou à atenção que o debate da convivência não é novo, mas ressaltou o pioneirismo do Estado em construir o plano estadual. “Pela primeira vez Pernambuco realiza uma conferência de convivência com o Semiárido, é um momento histórico não só para o Estado, mas também para o Brasil”, disse.
Ainda dentro da pauta, os delegados debateram as estratégias para implementação, sistematização e finalização do plano estadual e a sistematização e finalização do plano. A programação da conferência foi encerrada ainda no final da manhã.
Natal que si aproxima
domingo, 22 de dezembro de 2013
ASA/PE e UNIVERSIDADES DISCUTEM PARCERIAS
Texto e Fotos Daniel Ferreira
“Essa relação do saber popular e saber acadêmico firma como uma proposta de sociedade”
Saber popular e academia podem andar lado a lado ou até mesmo estarem juntos. É nessa perspectiva que aconteceu uma reunião com a secretária executiva da Cáritas Diocesana de Pesqueira e Coordenadora Executiva da Articulação no Seminário Brasileiro (ASA) pelo Estado de Pernambuco, Neilda Pereira, e representantes das universidades públicas do Estado. Na ocasião, os participantes debateram sobre oportunidades de parcerias com pesquisas e estudos voltados para a convivência com o Semiárido. O encontro aconteceu nesta quarta-feira (18) em Recife.
Estiveram presentes na reunião os professores Édila Soares (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação - Undime/Pernambuco), Gilvânia Oliveira (Universidade Federal Rural de Pernambuco-UFRPE), Juliana Couto (Universidade Federal de Pernambuco-UFPE) e Audísio Costa (Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco – Adufepe). A Universidade do Vale do São Francisco (Univasf) e Universidade de Pernambuco (UPE) estão também fazendo parte desse grupo de debate.
Para Édila Soares, a intenção é aproximar a academia e com o saber popular e as práticas pelas famílias agricultoras acompanhadas pela ASA Pernambuco. “Assim como água e educação são direitos universais, queremos também que a convivência com o Semiárido seja também. A partir da educação possamos construir diretrizes e políticas integradas, com diversas secretarias e entes do executivo (município, Estado e União) pensando a partir da Lei Estadual de Convivência com o Semiárido”, explicou a educadora.
“A aproximação com a academia vai contribuir em pesquisas e estudos para fortalecer nossas ações enquanto ASA e junto às famílias agricultoras do Semiárido pernambucano. Essa relação do saber popular e saber acadêmico aponta como uma proposta de sociedade alcançável, mostrando que não há saber superior ou inferior, mas saberes que se somam”, enfatizou Neilda Pereira.
A ideia que esse grupo de professores das universidades possa contribuir no planejamento dos planos municipais de convivência com o Semiárido e na formação de gestores e docentes com a ampliação do Programa Cisternas nas Escolas. O próximo passo é firmar formalmente essa parceria com todos os reitores das universidades do Estado e criar um calendário para 2014.
Celebrar e olhar para frente
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A agricultora Claudia Lima, do sítio Carrapato, de Santa Cruz da Baixa Verde (PE), representou as dez mil famílias que já conquistaram as implementações, através do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2/ASA). Ela falou sobre a importância de conquistar, recentemente, uma cisterna-enxurrada, para garantir o direito à água. “Eu andava três quilômetros e meio para buscar água para beber e para cozinhar. Ganhei a primeira cisterna [16 mil litros] que aliviou muito a minha vida. Hoje a situação melhorou ainda mais com a cisterna-enxurrada. Agora tenho plantação perto de casa. Mudou muito a minha vida e da minha comunidade”, relatou Claudia. Além de cisternas-enxurrada, o patrocínio prevê a construção de tecnologias como a cisterna-calçadão, o barreiro trincheira e a barragem subterrânea, nos próximos meses. Ao todo, está prevista a construção de 20 mil tecnologias, 340 intercâmbios, produção de 260 boletins e 195 banners de experiências, apoio na construção de 130 casas de sementes, implantação de 65 viveiros de mudas e capacitações com agricultores e agricultoras sobre Gestão de Água para Produção de Alimentos (GAPA) e Sistema Simplificado de Manejo da Água (SISMA).
“No início do ano [de 2013], a Petrobras verificou os programas para captação e armazenamento de água no Semiárido e percebeu a grande oportunidade de aprender e se associar a quem sabe fazer. Ainda bem que nós nos aproximamos da ASA”, declarou o engenheiro Mauro Mendes, da Petrobras. O evento contou com uma mesa formada por Claudia Lima e Mauro Mendes, além do coordenador do P1+2, Antonio Barbosa, e o coordenador executivo da ASA, Naidison Baptista. A solenidade contou ainda com apresentação de vídeo sobre as atividades realizadas e homenagem aos representantes da Petrobras. As atividades fizeram parte da reunião mensal da coordenação executiva da ASA. Os relatos abordaram um clima de contentamento entre ASA e Petrobras. Os discursos sobre a importância da união entre as instituições, comprometimento e aprendizagens mútuas foram unânimes entre os expositores. “A ASA, a Petrobras e o Governo Federal não fariam isso sozinhos. Só a união desses entes diferentes, mas que se respeitam e que se reforçam, é que tem conseguido realizar esta ação", definiu Naidison Baptista. |
sábado, 21 de dezembro de 2013
Velório do músico Reginaldo Rossi é aberto ao público na Assembleia Legislativa
Da RedaçãoAtualizada às 22h21
Foto: Reprodução
Na manhã desta sexta-feira (20), por volta das 10h, faleceu o cantor Reginaldo Rossi. Ele estava internado desde o dia 27 de novembro, no Hospital Memorial São José, no Recife, e foi diagnosticado com câncer de pulmão, divulgado no dia 11 de dezembro, depois de uma biópsia realizada em um gânglio retirado da axila direita do artista.
Reginaldo Rossi iria completar 70 anos no dia 14 fevereiro e deixa esposa e um filho. O velório foi marcado para a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). O Governo do Estado decretou três dias de luto oficial pela morte do músico.
No final da tarde, por volta das 18h15, o corpo do cantor chegou à Alepe, onde teve início o a cerimônia para amigos, familiares e autoridades. A repórter Simone Santos acompanhou a movimentação.
Às 19h45, os portões da Assembleia Legislativa foram abertos para que o público pudesse ter acesso e acompanhar o velório.
O repórter Handerley Souza está no velório do Rei do Brega. Silvério Pessoa foi se despedir de Reginaldo Rossi e destacou a importância da obra do cantor, que levou a cultura de Pernambuco mundo afora.
O cover do Rei, Luís Carlos Rossi, também foi prestar homenagem ao ídolo:
O músico Alcimar Monteiro exaltou o legado de Reginaldo Rossi. Ele comparou o Rei à Nelson Rodrigues, dizendo que Rossi “falava a língua do povo”.
O repórter Handerley Souza também conversou com o músico Ubirajara Ferreira da Silva, mais conhecido como “Bira Rossi”, tido como o maior fã do Rei.
À tarde, no mercado da Madalena, fãs de Reginaldo Rossi se reuniram para prestar as últimas homenagens ao cantor, na “Confraria do Corno”.
A Rádio Jornal e a JC News prestaram homenagem ao músico:
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domingo, 15 de dezembro de 2013
Os pipas e as cisternas
Nota Pública das entidades que trabalham o Semiárido Brasileiro
ASA, CESE*, Resab**, Cáritas Brasileira
ASA, CESE*, Resab**, Cáritas Brasileira
Chamou a atenção a matéria sobre o abastecimento das cisternas por carros pipas contaminados, ou água contaminada dos pipas, veiculada pelo Fantástico da Rede Globo, edição de 01/12/2013. Entretanto, cabem algumas observações sobre a referida matéria.
Em primeiro, o conteúdo da matéria não pode se generalizar para todo o Semiárido. Na maioria dos lugares o abastecimento está sendo decente e com água tratada, em que pese tantos casos de fraudes, má fé e falta de ética por falta dos pipeiros e políticos. Também no que se refere à epidemia em Alagoas, trate-se de um caso localizado, acontecido há meses atrás, só agora vindo ao ar no referido programa.
Em segundo, está evidente que ainda estamos longe de resolver os problemas da água potável da região do Semiárido, particularmente em épocas de grandes estiagens, como essa que estamos passando. Uma grande parcela da população local ainda bebe água contaminada, não só porque vem pelos pipas, mas porque suas fontes de abastecimento ainda são os barreiros e açudes, cujas águas insalubres servem para o abastecimento humano e dos animais.
Terceiro, é preciso realçar que, com todos os limites apontados pela referida matéria, já não temos nessa região, nem mesmo em períodos de longas estiagens, a intensa mortalidade infantil, tantas doenças veiculadas por água contaminada, já não precisamos das famigeradas “frentes de emergência”, já não temos intensas migrações e nem os horrores dos saques feitos por sedentos e famélicos. Nós, das entidades que atuam nessa região, construindo a convivência como Semiárido, fazemos questão de realçar as conquistas desse povo.
Por último, se não quisermos que essas cenas do presente se repitam no futuro, é só o governo implementar massivamente as tecnologias de convivência com o Semiárido: cisternas de captação de água de chuva para beber, cisternas para produção, caxios, barreiros, barragens subterrâneas, etc, e implementar adutoras para abastecimento das aglomerações rurais e centros urbanos. Onde esses serviços já chegaram, apesar das dificuldades, os problemas trágicos já não se repetem. Infelizmente, essa situação atinge todo povo brasileiro. Recentemente, o IBGE divulgou a síntese dos Indicadores sociais 2013 – SIS, onde constata que 29,7% dos domicílios urbanos não tem acesso simultâneo aos serviços básicos de saneamento e iluminação, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo e iluminação elétrica. Do total de domicílios analisados, 93,5% acusaram ausência de esgotamento sanitário (IBGE/2013).
Talvez ainda precisemos dos pipas, principalmente onde os serviços de água não chegaram, ou simplesmente porque nessas longas estiagens há locais tão distantes que vão continuar precisando deles. Aí então é uma questão da vigilância sanitária e dos responsáveis pelos programas de abastecimento dos pipas, assim como dos gestores públicos federal, estadual e municipal, assumirem suas responsabilidades.
Em primeiro, o conteúdo da matéria não pode se generalizar para todo o Semiárido. Na maioria dos lugares o abastecimento está sendo decente e com água tratada, em que pese tantos casos de fraudes, má fé e falta de ética por falta dos pipeiros e políticos. Também no que se refere à epidemia em Alagoas, trate-se de um caso localizado, acontecido há meses atrás, só agora vindo ao ar no referido programa.
Em segundo, está evidente que ainda estamos longe de resolver os problemas da água potável da região do Semiárido, particularmente em épocas de grandes estiagens, como essa que estamos passando. Uma grande parcela da população local ainda bebe água contaminada, não só porque vem pelos pipas, mas porque suas fontes de abastecimento ainda são os barreiros e açudes, cujas águas insalubres servem para o abastecimento humano e dos animais.
Terceiro, é preciso realçar que, com todos os limites apontados pela referida matéria, já não temos nessa região, nem mesmo em períodos de longas estiagens, a intensa mortalidade infantil, tantas doenças veiculadas por água contaminada, já não precisamos das famigeradas “frentes de emergência”, já não temos intensas migrações e nem os horrores dos saques feitos por sedentos e famélicos. Nós, das entidades que atuam nessa região, construindo a convivência como Semiárido, fazemos questão de realçar as conquistas desse povo.
Por último, se não quisermos que essas cenas do presente se repitam no futuro, é só o governo implementar massivamente as tecnologias de convivência com o Semiárido: cisternas de captação de água de chuva para beber, cisternas para produção, caxios, barreiros, barragens subterrâneas, etc, e implementar adutoras para abastecimento das aglomerações rurais e centros urbanos. Onde esses serviços já chegaram, apesar das dificuldades, os problemas trágicos já não se repetem. Infelizmente, essa situação atinge todo povo brasileiro. Recentemente, o IBGE divulgou a síntese dos Indicadores sociais 2013 – SIS, onde constata que 29,7% dos domicílios urbanos não tem acesso simultâneo aos serviços básicos de saneamento e iluminação, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo e iluminação elétrica. Do total de domicílios analisados, 93,5% acusaram ausência de esgotamento sanitário (IBGE/2013).
Talvez ainda precisemos dos pipas, principalmente onde os serviços de água não chegaram, ou simplesmente porque nessas longas estiagens há locais tão distantes que vão continuar precisando deles. Aí então é uma questão da vigilância sanitária e dos responsáveis pelos programas de abastecimento dos pipas, assim como dos gestores públicos federal, estadual e municipal, assumirem suas responsabilidades.
* Coordenadoria Ecumênica de Serviços
** Rede de Educadores do Semiárido Brasileiro
** Rede de Educadores do Semiárido Brasileiro
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Luta de mulheres no campo
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No Brasil, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ocorreram mais de 50 mil homicídios de mulheres – chamados feminicídios – entre os anos de 2001 e 2011. Ainda de acordo com o IPEA, grande parte dessas mortes deve-se à violência doméstica e muitas morrem pelas mãos de seus companheiros e ex-companheiros. Para o movimento de mulheres, esse período dos 16 dias de ativismo – que segue até o dia 10 de dezembro – é tempo não só de mobilização, mas também de relembrar todas aquelas que vêm, ao longo dos anos, colaborando para a equidade de gênero, lutando pela garantia dos direitos humanos, marcando um lugar nos movimentos sociais e servindo de inspiração para as novas gerações, no campo e na cidade. Em relação às mulheres rurais, caso emblemático é o de Margarida Alves, agricultora e sindicalista da Paraíba cujo assassinato, ocorrido há 30 anos, segue impune. A história da liderança paraibana deu origem à Marcha das Margaridas, que desde o ano 2000 reúne movimentos sindicais e feministas de todos os estados brasileiros em Brasília, que vão às ruas pelo enfrentamento à violência no campo. Três décadas após a morte de Margarida Alves, algumas bandeiras permanecem, outras se atualizam. Os direitos trabalhistas, defendidos à época, são alguns dos já consolidados, mas a batalha pelo direito à terra e à produção seguem firmes. Somam-se a isso questões como o direito a permanecer na terra – ameaçado pelos projetos de agronegócios – e a defesa pelos direitos das mulheres e contra a opressão de gênero, motivos pelos quais ainda é preciso se mobilizar. Conheça, a seguir, o perfil de algumas dessas lideranças de ontem e de hoje e suas contribuições para o movimento de mulheres. Elas representam tantas outras mulheres do Semiárido, especialmente da área rural, que enfrentam todos os dias as suas pequenas batalhas. Nazaré Flor – Maria Nazaré de Sousa, agricultora assentada da reforma agrária de Itapipoca (CE). Liderança rural, atuava por justiça no campo. No Movimento de Mulheres, uniu arte e militância com poemas relativos à luta das mulheres e aos direitos humanos, publicados no livro “Canção e Poesia”. Nazaré foi, ainda, uma das fundadoras do MMTR-NE e da Rede de Mulheres Rurais da América Latina e do Caribe (LAC). Margarida Alves – Trabalhadora rural e liderança sindical feminina de Alagoa Grande, na Paraíba. Defensora da reforma agrária, dos diretos humanos da classe trabalhadora rural, lutou contra o latifúndio e as injustiças sociais. Sua participação intensa nos movimentos e nas lutas populares motivou seu assassinato por latifundiários, em 1982, em frente à casa onde morava. O Movimento Sindical Rural lhe rende homenagem, especialmente através da Marcha das Margaridas, que reúne milhares de mulheres trabalhadoras rurais de todo o Brasil, em grande manifestação em Brasília.
Romana Barros – Natural de Aracati (CE), em 1985, a jovem nasceu em 1985 e militou nos movimentos estudantil, feminista e de campo. Trabalhou no Centro Feminista 8 de Março, acompanhando os grupos de mulheres. Morreu em 2011, em decorrência de um acidente de carro. Sua memória hoje é lembrada pelos movimentos e seu nome inspirou uma das rotas da Caravana Agroecológica e Cultural do Apodi, que aconteceu no Rio Grande do Norte, no último mês de outubro, em defesa dos assentados da reforma agrária da região ameaçados pelo chamado “Projeto da Morte”. Saiba mais sobre a Caravana do Apodi aqui. Vanete Almeida - Negra e sertaneja, como se autodefinia, a pernambucana foi educadora popular e uma referência feminista na América Latina e Caribe. Foi fundadora do Centro de Educação Comunitária Rural (Cecor) e uma das primeiras vozes a denunciar a situação das trabalhadoras rurais no Brasil, atuando na fundação do MMTR-NE e da Rede LAC. Organizou diversos livros, como “Uma História muito Linda” e “Riacho Olho D’Água”, ambos de 2007, e inspirou a obra “Ser Mulher num Mundo de Homens”, de Cornélia Parisius. Foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ganhou o Prêmio Claudia, em 2002, e o Prêmio Trip, em 2009. Também foi uma das entrevistadas no documentário brasileiro “Eu Maior”, lançado em 2013. Neste mês, o Cecor lança sua obra póstuma “Lutando e lutando”, uma mensagem de esperança na luta contra o câncer. Clique aqui e saiba mais sobre o lançamento.
*Com colaboração das organizações Cetra, MMTR–NE, Cecor e Casa da Mulher do Nordeste. |
domingo, 24 de novembro de 2013
Direitos das comunidades quilombolas em pauta
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A data se faz propícia, então, para refletir sobre as questões raciais e a elaboração, aprovação e implementação, nos últimos anos, de políticas afirmativas no País, como a reserva de 50% de vagas no sistema de ensino público federal, nos níveis superior e técnico de nível médio – a Lei 12.711 de 2012, mais conhecida como Lei das Cotas. Outro ponto que atualiza o discurso a respeito dessas políticas de inclusão é o projeto de lei que prevê a reserva de 20% de vagas nos concursos públicos federais para negros e pardos, enviado ainda neste mês de novembro para ser votado na Câmara. As medidas, defendidas pelo movimento negro, visam diminuir a desigualdade racial e equiparar o acesso a oportunidades. Mas se a população negra urbana já pode comemorar a conquista de alguns direitos, as dificuldades de quem vive no campo continuam. Políticas públicas – As comunidades de remanescentes de quilombos passaram a ser oficialmente reconhecidas a partir de 2003, com o decreto-lei 4.887, considerando aspectos territoriais e ancestralidade de origem negra. Segundo a Fundação Cultural Palmares, hoje oficialmente são mais de duas mil comunidades quilombolas no Brasil, concentradas principalmente nos estados do Pará, Maranhão, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais.
Para essa população tradicional, há a persistência de problemas antigos – embora o acesso à terra para moradia seja garantido por lei, na maioria das vezes o território é conquistado com muito esforço e faltam condições básicas de sobrevivência. Já os quilombos localizados no Semiárido precisam conviver com longos períodos de estiagem e, nesses casos, além do direito à terra, o desafio é alcançar o direito à água, que perpassa pelo acesso a tecnologias sociais de armazenamento. Nesse sentido, as políticas públicas de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) podem sinalizar para garantir a segurança e a soberania alimentar dessas comunidades rurais. De acordo com dados do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), devem ser atendidas cerca de quatro mil famílias quilombolas nos estados de Pernambuco, Bahia, Maranhão e Minas Gerais até o final de 2014; desse montante, até outubro deste ano, mais de duas mil famílias de remanescentes de quilombos já receberam ações de Ater e fomento para projetos de agricultura familiar. Acesso à água, terra e produção – A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) contribui nesse processo com a implantação de cisternas de placas com capacidade de guardar 16 mil litros de água para consumo humano – a partir do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) – e com tecnologias como a cisterna-calçadão, que comporta 52 mil litros de água para atividade agrícola e criação de pequenos animais, barreiros-trincheiras e tanques de pedra – viabilizadas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Em Pernambuco, o Sítio Serra da Torre é uma das 11 comunidades negras rurais do município de Custódia e as 63 famílias que ali vivem têm acesso a tecnologias sociais do P1+2. Doze dessas famílias contam com oito barreiros-trincheiras para utilizar em suas propriedades e, além disso, a comunidade conquistou quatro tanques de pedra. Com isso, mantêm hortas e criam galinhas para consumo próprio e comercialização na feira municipal.
A partir da assessoria técnica do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), as famílias de Lapinha contam com o recurso da água a partir de quatro cisternas de placas e mantêm fabriqueta de rapadura e uma horta de Produção Agroecológica Integrada Sustentável (PAIS), o que permite a produção de alimentos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ambos do governo federal. Seu Odorico, presidente da Associação do Quilombo da Lapinha, lembra de todo o esforço necessário para construir essa história de independência: “Tivemos conhecimento que a gente era descendente de quilombolas e recorremos para conseguir a terra que era de nossos avós, de nossos ancestrais. Depois, a gente no acampamento não tinha condições de buscar água no rio e aí veio a cisterna, que enche de água potável quando chove. Agora, vendemos até para a merenda escolar, nos organizamos para ter segurança”, conclui. |
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Assentamento Moacir Lucena, em Apodi, passa por estiagem com fartura de alimentos
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Entender a natureza do lugar, o funcionamento das plantas, dos bichos e do solo foi fundamental para que as famílias do assentamento transformassem a terra pobre, onde trabalhavam como meeiros antes da desapropriação para reforma agrária, num lugar cheio de vida e boas experiências para compartilhar. O assentamento se tornou uma referência e recebeu, no final de mês de outubro, a Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi, evento de preparação ao III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA). “Aqui em Moacir a gente abraçou essa causa, regou a plantinha chamada conhecimento e hoje estamos colhendo os frutos que é de passar por duas grandes secas e não ter perda de rebanho e não ter aquela carência de ficar mendigando cesta básica ao poder público ou saqueando comércios particulares. Então pra gente, o conhecimento que a gente adquiriu ao longo dos anos, foi fundamental pra gente superar esses 30 meses de seca”, conta Seu Zé de Holanda para os participantes da caravana, que ouviam atentos a apresentação do agricultor na sede da associação. O conhecimento do qual Zé de Holanda se refere está associado a uma mudança de paradigma baseado na convivência com o Semiárido que se contrapõe a política do “combate à seca”. O principal pilar da convivência é a estocagem. E isso os moradores de Moacir Lucena conhecem bem. Desde 2009, eles adotaram um sistema de armazenamento de alimentos para passar quatro ou cinco anos, que servirá tanto para o ser humano como para os animais. A principal estratégia adotada pelas famílias é o sistema de manejo da Caatinga, através de três técnicas: o raleamento, o rebaixamento e o enriquecimento. A primeira consiste em observar as espécies que compõem a vegetação e retirar a que mais predomina - no caso do assentamento é o Pau- Branco - para que outras possam surgir, com o objetivo de aumentar a produção de forragem. O rebaixamento é uma broca manual de espécies lenhosas para a alimentação animal, a uma altura de 20 a 30 cm. “Então o raleamento é tirar um pouco do que tem demais e rebaixamento trazer lá de cima pra o alcance do animal e aí promover um espaço onde vão surgir novas espécies que, com certeza, estavam quase em extinção, como a aroeira. E a semente que cair aqui esse forro vai servir de berço para que ela permaneça no solo e com a chuva vindoura, ela irá germinar e teremos uma variedade de pastagens tanto apícola como de suporte animal e também de origem”, explica o agricultor. Já o enriquecimento, seu Zé de Holanda explica que é difícil fazer sem um sistema de irrigação. Mesmo assim, eles adotaram um modelo à base de espécies como a leucena, a moringa, a flor de seda e também do plantio de estacas de frutíferas como a cajarana, a seriguela, o cajá, que servem para a produção de polpas. “Esse é o enriquecimento que a gente conhece, trazendo também um pouco do próprio capim que no período do inverno tem aquele poder de rebrota”, afirma. Esse sistema em nada lembra o modelo baseado na broca e na queimada que as famílias praticavam há 15 anos. Naquela época, a única renda que eles tinham era da produção de sequeiro (milho, feijão e algodão). Hoje, além desse tipo de cultivo, eles desenvolvem a apicultura, a caprinocultura melhorada tanto para corte como para leite, quintais produtivos, banco de sementes. Toda essa diversidade tem proporcionado uma melhoria de vida para as famílias, ajudando inclusive a manter os filhos na terra. No assentamento também há um grupo de jovens, formado atualmente por 26 pessoas, que desenvolve trabalhos com reciclagem, horta, etc. “De 1998 a 2000, por não ter os conhecimentos dos potenciais que existiam aqui, era difícil mesmo. A gente via filho nosso trabalhando em outra propriedade pra ganhar dinheiro. Mas hoje não (.....) A produção do lote é a produção familiar aonde vai o homem, a mulher e o filho, a questão da comercialização e o lucro financeiro também é rateado entre todo mundo de casa. Eu acho que tem sido isso que proporcionou a permanência dos jovens ao lado dos pais”, avalia Holanda. Em relação à água, cada família possui uma cisterna de placa para o consumo humano. Por conta do período prologando de seca, as cisternas tiveram que ser abastecidas pelo carro-pipa. Também dispõem de um poço artesiano (cerca de 90 metros de fundura) que abastece uma caixa elevada de 22 mil litros que distribui água para os 20 lotes de 19 hectares cada, por meio de um sistema de adutora. Essa água é usada para dar de beber aos animais e também para o plantio de algumas capineiras e fruteiras. Os quintais produtivos são aguados com água reaproveitada da pia e do banheiro. “Tudo isso são coisas pequenas, fáceis de fazer que a gente sem conhecimento não praticava e estava matando o solo, ano a ano, mas a partir do momento que juntou o conhecimento técnico e a prática do agricultor a gente viu as mudanças, as transformações, a fauna voltando, nossos animais, a flora viva novamente, a produção do mel sendo aumentada. O Semiárido é uma caixinha de segredos, só precisa observar, praticar e conviver. Não é difícil”, ensina o assentado. Algodão, o carro-chefe de Apodi A região de Apodi é grande produtora de algodão. No entanto, as famílias quase desistiram do plantio da cultura devido aos prejuízos causados pelo bicudo. O cultivo era feito em sistema de monocultura, facilitando o ataque da praga. Com o apoio técnico de várias entidades como o Projeto Dom Helder Camara, a Coopervida e a Embrapa, as famílias decidiram fazer o plantio consorciado do algodão com outras quatro culturas: milho, feijão, gergelim e sorgo. A experiência deu certo e em 2011 o território de Apodi atingiu a produção de oito toneladas de algodão agroecológico. Pelo Moacir Lucena, Seu Zé de Holanda produziu de 1.200 a 1.300 quilos de pluma, tornando- se o maior produtor do assentamento.
“O retorno da semente pra gente teve uma importância grande, principalmente, nesses anos de seca. Guardamos uma quantidade grande de semente já preparando para dois anos de plantio e o restante contribui muito para que os animais permanecerem gordos. Antigamente, esse algodão ia embora. A gente vendia de forma bruta, na rama como se chama, pluma, caroço, tudo ia embora. E a gente não nem tinha o conhecimento do que era feito com o nosso algodão. E agora não. Sabemos que ele é usado na fabricação de roupas, tênis. E pra gente é muito gratificante colocar uma camisa feita com fios do algodão que nos produzimos”, diz sorridente o agricultor. A ameaça do Projeto da Morte Quando decidiram lutar pela posse da terra, em 1996, as famílias queriam conquistar a liberdade que não tinham trabalhando como meeiros numa grande fazenda. Dois anos depois, após a conquista da terra, anunciada pelo programa de rádio a Voz do Brasil, como lembra Seu Zé de Holanda, as famílias iniciaram uma nova vida, um verdadeiro renascimento. Nesse período elas contaram com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Com muito trabalho e união, transformaram o assentamento Moacir Lucena em uma referência da agricultura familiar camponesa. Passados 15 anos, o sonho de uma vida cada vez mais próspera está ameaçada pela instalação de um projeto de irrigação do Departamento Nacional de Obras Conta a Seca (DNOCS) na Chapada do Apodi, chamado pelas famílias de Projeto da Morte. “O primeiro risco que a gente está correndo é o fim da produção da agricultura familiar se esse projeto for implantado da forma como está sendo pensado. Porque a gente veio de uma prática baseada no uso de agrotóxicos, quando a gente trabalhava como meeiro. A gente vê os danos que esse sistema causou pra gente, principalmente, na saúde, no solo, no ar. E esse projeto a gente se contrapõe e diz que é o projeto da morte, porque a gente quase morreu fazendo essas práticas que eles vão fazer aqui na Chapada e de forma muito mais destrutiva e agressiva com uso até de pulverização aérea”, lamenta o agricultor. Segundo Zé de Holanda, por ser uma área de assentamento, as famílias de Moacir Lucena não serão retiradas da terra, mas um dos canais do projeto vai passar a 30 metros dos lotes. Com a pulverização aérea, o veneno vai se espalhar por toda a região contaminando o solo, as fontes de água, além de eliminar 100% a apicultura e toda vida presente da Chapada, o segundo solo mais fértil do Brasil. Além disso, vai tornar as famílias escravas das grandes empresas além de problemas como crimes, alcoolismo, como aconteceu no lado cearense da Chapada, onde o projeto de irrigação já foi implantado. “A gente mal acabou de implantar um sistema que a gente adota como justo e sustentável. Está com 15 anos que essa experiência vem dando bons frutos. Ai de repente, o mesmo governo que nos ajudou a colocar em prática essa experiência, de tirar de quem tem muito para distribuir com quem não tem nada, tá fazendo o contrário. Tá tirando de quem tem pouquinho e dando nas mãos de quem tem dinheiro pra comprar terra”, questiona o agricultor que mesmo diante dessa situação se mostra forte para lutar pela vida no Apodi. |
Assentamento Moacir Lucena, em Apodi, passa por estiagem com fartura de alimentos
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Entender a natureza do lugar, o funcionamento das plantas, dos bichos e do solo foi fundamental para que as famílias do assentamento transformassem a terra pobre, onde trabalhavam como meeiros antes da desapropriação para reforma agrária, num lugar cheio de vida e boas experiências para compartilhar. O assentamento se tornou uma referência e recebeu, no final de mês de outubro, a Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi, evento de preparação ao III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA). “Aqui em Moacir a gente abraçou essa causa, regou a plantinha chamada conhecimento e hoje estamos colhendo os frutos que é de passar por duas grandes secas e não ter perda de rebanho e não ter aquela carência de ficar mendigando cesta básica ao poder público ou saqueando comércios particulares. Então pra gente, o conhecimento que a gente adquiriu ao longo dos anos, foi fundamental pra gente superar esses 30 meses de seca”, conta Seu Zé de Holanda para os participantes da caravana, que ouviam atentos a apresentação do agricultor na sede da associação. O conhecimento do qual Zé de Holanda se refere está associado a uma mudança de paradigma baseado na convivência com o Semiárido que se contrapõe a política do “combate à seca”. O principal pilar da convivência é a estocagem. E isso os moradores de Moacir Lucena conhecem bem. Desde 2009, eles adotaram um sistema de armazenamento de alimentos para passar quatro ou cinco anos, que servirá tanto para o ser humano como para os animais. A principal estratégia adotada pelas famílias é o sistema de manejo da Caatinga, através de três técnicas: o raleamento, o rebaixamento e o enriquecimento. A primeira consiste em observar as espécies que compõem a vegetação e retirar a que mais predomina - no caso do assentamento é o Pau- Branco - para que outras possam surgir, com o objetivo de aumentar a produção de forragem. O rebaixamento é uma broca manual de espécies lenhosas para a alimentação animal, a uma altura de 20 a 30 cm. “Então o raleamento é tirar um pouco do que tem demais e rebaixamento trazer lá de cima pra o alcance do animal e aí promover um espaço onde vão surgir novas espécies que, com certeza, estavam quase em extinção, como a aroeira. E a semente que cair aqui esse forro vai servir de berço para que ela permaneça no solo e com a chuva vindoura, ela irá germinar e teremos uma variedade de pastagens tanto apícola como de suporte animal e também de origem”, explica o agricultor. Já o enriquecimento, seu Zé de Holanda explica que é difícil fazer sem um sistema de irrigação. Mesmo assim, eles adotaram um modelo à base de espécies como a leucena, a moringa, a flor de seda e também do plantio de estacas de frutíferas como a cajarana, a seriguela, o cajá, que servem para a produção de polpas. “Esse é o enriquecimento que a gente conhece, trazendo também um pouco do próprio capim que no período do inverno tem aquele poder de rebrota”, afirma. Esse sistema em nada lembra o modelo baseado na broca e na queimada que as famílias praticavam há 15 anos. Naquela época, a única renda que eles tinham era da produção de sequeiro (milho, feijão e algodão). Hoje, além desse tipo de cultivo, eles desenvolvem a apicultura, a caprinocultura melhorada tanto para corte como para leite, quintais produtivos, banco de sementes. Toda essa diversidade tem proporcionado uma melhoria de vida para as famílias, ajudando inclusive a manter os filhos na terra. No assentamento também há um grupo de jovens, formado atualmente por 26 pessoas, que desenvolve trabalhos com reciclagem, horta, etc. “De 1998 a 2000, por não ter os conhecimentos dos potenciais que existiam aqui, era difícil mesmo. A gente via filho nosso trabalhando em outra propriedade pra ganhar dinheiro. Mas hoje não (.....) A produção do lote é a produção familiar aonde vai o homem, a mulher e o filho, a questão da comercialização e o lucro financeiro também é rateado entre todo mundo de casa. Eu acho que tem sido isso que proporcionou a permanência dos jovens ao lado dos pais”, avalia Holanda. Em relação à água, cada família possui uma cisterna de placa para o consumo humano. Por conta do período prologando de seca, as cisternas tiveram que ser abastecidas pelo carro-pipa. Também dispõem de um poço artesiano (cerca de 90 metros de fundura) que abastece uma caixa elevada de 22 mil litros que distribui água para os 20 lotes de 19 hectares cada, por meio de um sistema de adutora. Essa água é usada para dar de beber aos animais e também para o plantio de algumas capineiras e fruteiras. Os quintais produtivos são aguados com água reaproveitada da pia e do banheiro. “Tudo isso são coisas pequenas, fáceis de fazer que a gente sem conhecimento não praticava e estava matando o solo, ano a ano, mas a partir do momento que juntou o conhecimento técnico e a prática do agricultor a gente viu as mudanças, as transformações, a fauna voltando, nossos animais, a flora viva novamente, a produção do mel sendo aumentada. O Semiárido é uma caixinha de segredos, só precisa observar, praticar e conviver. Não é difícil”, ensina o assentado. Algodão, o carro-chefe de Apodi A região de Apodi é grande produtora de algodão. No entanto, as famílias quase desistiram do plantio da cultura devido aos prejuízos causados pelo bicudo. O cultivo era feito em sistema de monocultura, facilitando o ataque da praga. Com o apoio técnico de várias entidades como o Projeto Dom Helder Camara, a Coopervida e a Embrapa, as famílias decidiram fazer o plantio consorciado do algodão com outras quatro culturas: milho, feijão, gergelim e sorgo. A experiência deu certo e em 2011 o território de Apodi atingiu a produção de oito toneladas de algodão agroecológico. Pelo Moacir Lucena, Seu Zé de Holanda produziu de 1.200 a 1.300 quilos de pluma, tornando- se o maior produtor do assentamento.
“O retorno da semente pra gente teve uma importância grande, principalmente, nesses anos de seca. Guardamos uma quantidade grande de semente já preparando para dois anos de plantio e o restante contribui muito para que os animais permanecerem gordos. Antigamente, esse algodão ia embora. A gente vendia de forma bruta, na rama como se chama, pluma, caroço, tudo ia embora. E a gente não nem tinha o conhecimento do que era feito com o nosso algodão. E agora não. Sabemos que ele é usado na fabricação de roupas, tênis. E pra gente é muito gratificante colocar uma camisa feita com fios do algodão que nos produzimos”, diz sorridente o agricultor. A ameaça do Projeto da Morte Quando decidiram lutar pela posse da terra, em 1996, as famílias queriam conquistar a liberdade que não tinham trabalhando como meeiros numa grande fazenda. Dois anos depois, após a conquista da terra, anunciada pelo programa de rádio a Voz do Brasil, como lembra Seu Zé de Holanda, as famílias iniciaram uma nova vida, um verdadeiro renascimento. Nesse período elas contaram com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Com muito trabalho e união, transformaram o assentamento Moacir Lucena em uma referência da agricultura familiar camponesa. Passados 15 anos, o sonho de uma vida cada vez mais próspera está ameaçada pela instalação de um projeto de irrigação do Departamento Nacional de Obras Conta a Seca (DNOCS) na Chapada do Apodi, chamado pelas famílias de Projeto da Morte. “O primeiro risco que a gente está correndo é o fim da produção da agricultura familiar se esse projeto for implantado da forma como está sendo pensado. Porque a gente veio de uma prática baseada no uso de agrotóxicos, quando a gente trabalhava como meeiro. A gente vê os danos que esse sistema causou pra gente, principalmente, na saúde, no solo, no ar. E esse projeto a gente se contrapõe e diz que é o projeto da morte, porque a gente quase morreu fazendo essas práticas que eles vão fazer aqui na Chapada e de forma muito mais destrutiva e agressiva com uso até de pulverização aérea”, lamenta o agricultor. Segundo Zé de Holanda, por ser uma área de assentamento, as famílias de Moacir Lucena não serão retiradas da terra, mas um dos canais do projeto vai passar a 30 metros dos lotes. Com a pulverização aérea, o veneno vai se espalhar por toda a região contaminando o solo, as fontes de água, além de eliminar 100% a apicultura e toda vida presente da Chapada, o segundo solo mais fértil do Brasil. Além disso, vai tornar as famílias escravas das grandes empresas além de problemas como crimes, alcoolismo, como aconteceu no lado cearense da Chapada, onde o projeto de irrigação já foi implantado. “A gente mal acabou de implantar um sistema que a gente adota como justo e sustentável. Está com 15 anos que essa experiência vem dando bons frutos. Ai de repente, o mesmo governo que nos ajudou a colocar em prática essa experiência, de tirar de quem tem muito para distribuir com quem não tem nada, tá fazendo o contrário. Tá tirando de quem tem pouquinho e dando nas mãos de quem tem dinheiro pra comprar terra”, questiona o agricultor que mesmo diante dessa situação se mostra forte para lutar pela vida no Apodi. |
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Pesquisadora alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde e na alimentação
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Para alertar o Estado e a sociedade do impacto do uso de agrotóxicos, que vem crescendo a cada ano, sobre a saúde pública e a segurança alimentar e nutricional da população, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) lançou em 2012 o dossiê “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na Saúde”, que está divido em três partes. Por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, celebrado nesta quarta-feira (16/10), achamos pertinente divulgar esse documento com o objetivo de contribuir com a divulgação de informações que ajudem a população a conhecer melhor o assunto e poder fazer escolhas conscientes de consumo. Quem comenta o dossiê é a médica, pesquisadora e integrante da Abrasco e da Rede de Justiça Ambiental, Raquel Rigotto. Na entrevista concedida à jornalista da Assessoria de Comunicação da ASA (Asacom), Gleiceani Nogueira, a pesquisadora responde a questões da parte 1 do dossiê intitulado“Agrotóxicos, Segurança Alimentar e Nutricional e Saúde”. Ela explica o motivo do crescimento do uso de agrotóxicos na agricultura, fala dos riscos à saúde e do papel das políticas públicas. Além disso, ela fala de um estudo sobre a contaminação das águas por agrotóxicos em comunidades da Chapada do Apodi do lado do Ceará afetadas pelo agronegócio e dá dicas de como ter uma alimentação mais saudável e se prevenir dos riscos dos agrotóxicos. Confira! Asacom - De acordo com o dossiê, enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o mercado brasileiro cresceu 190%, tornando o país o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. A que se deve esse crescimento no Brasil? Raquel Rigotto - Quando a gente observa o perfil de distribuição do consumo de cerca de um milhão de toneladas anuais de agrotóxicos no Brasil, a gente verifica que mais de 70% desse total são consumidos nos cultivos de soja, cana-de-açúcar e milho, que são commodities exportadas em sua maioria. Além disso, a gente observa também um plano de ação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Comércio que, até 2021, tem como meta exatamente ampliar a produção dessas commodities para exportação em percentuais que variam entre 30% a 78%, então, essa é a fonte desse consumo elevado de agrotóxicos. Agora é importante considerar também os impactos da Revolução Verde sobre esse consumo porque nos últimos 60 anos nós viemos sendo bombardeados por uma cultura que vem construindo uma série de mitos em torno da produção agrícola e um deles é de que não é possível produzir sem agrotóxicos. E a gente percebe que esse mito perpassa as políticas públicas, que muitas vezes condicionam o acesso ao crédito à comprovação da compra de agrotóxicos, a formação dos profissionais do campo das ciências agrárias, que vão sair reproduzindo essa ideologia, inclusive, na assistência técnica e extensão rural e na própria mídia, que divulga esse tipo de compreensão, inclusive, junto a médios e pequenos agricultores. Asacom - Qual o perigo dos agrotóxicos para a segurança alimentar e nutricional e a saúde das pessoas? Raquel Rigotto - Do ponto de vista da saúde, a gente tem a comprovação de vários danos que podem ser causados pelos agrotóxicos. Nós temos hoje 434 ingredientes ativos de agrotóxicos diferentes registrados no sistema do Ministério da Saúde, através da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Agricultura e cada um deles tem a sua nocividade e sua toxicidade. E quando a gente se alimenta, a gente tá absorvendo ou colocando dentro do nosso corpo e, no caso dos alimentos no Brasil, nós temos dados do Ministério da Saúde mostrando que 63% das amostras de frutas, verduras e hortaliças cedidas anualmente em todo o país para análise demonstram a presença de agrotóxicos e 28% deles são considerados inadequados para o consumo humano, tamanha a contaminação. Então, esse é um fato que vai repercutir em toda uma cadeia que vai desde a produção dos agrotóxicos, a exposição dos trabalhadores nas fábricas, a exposição das comunidades do entorno a essas fábricas por causa da contaminação ambiental que elas produzem, a venda desses produtos, o transporte deles pelas estradas e o seu uso, principalmente, na agricultura, que vai comprometer a saúde dos trabalhadores agrícolas. Vão comprometer também as famílias, seja pela ocorrência da prática de pulverização aérea que contamina o ar, a água, o solo, as residências, seja através de outras formas de aplicação que também contaminam especialmente as águas e levam esses agrotóxicos pra regiões remotas em relação à área específica de uso. Então, esses agrotóxicos vão estar relacionados a efeitos agudos, que são aqueles que acontecem em curto período de tempo, mas há concentrações elevadas, e também vamos ter os chamados efeitos crônicos, que são aqueles que mais comumente atingem os consumidores de alimentos e aí a gente tem um vasto leque de patologias. Asacom - Que tipos de patologias são essas? Raquel Rigotto – A gente pode citar, por exemplo, os efeitos endócrinos com alteração no comportamento de alguns de nossos hormônios, principalmente, os hormônios sexuais e, com isso, interferir em problemas comuns hoje como a puberdade precoce, má formação congênita, câncer de mama, câncer de próstata. Há também outros mecanismos de produção de câncer, especialmente, as leucemias. Aqui no Ceará, por exemplo, os agricultores têm 6,35 vezes mais leucemias do que os não agricultores num estudo que a gente fez entre 2000 a 2006. Temos também efeitos respiratórios e hepáticos. Há efeitos também sobre a pele, os rins e também os neurológicos que é importante lembrar, por exemplo, a hiperatividade em crianças vem sendo associada aos ingredientes ativos, a Síndrome de Parkinson também pode estar relacionada a isso, então, é um amplo leque de patologias. Tem outra dimensão que está indiretamente ou diretamente relacionada aos agrotóxicos que é o uso do transgênico, no caso daquela semente que tem seu material genético alterado para possibilitar a exposição ao herbicida sem que isso leve à morte da planta. É o caso da maioria dos transgênicos autorizados no Brasil. Então a discussão do uso de sementes transgênicas, além de uma lesão a esse patrimônio natural que são as sementes crioulas, levou a um aumento expressivo de herbicidas no País e isso traz importantes consequências para nós. Tem outro dado que merece ser mencionado que é dos 50 ingredientes ativos mais utilizados no Brasil hoje, 22 já foram proibidos em outros países. Asacom - A senhora foi responsável por um estudo que comprova a contaminação das águas por agrotóxicos em comunidades da Chapada do Apodi do lado do Ceará atingidas por um perímetro irrigado do DNOCS. Quais os principais resultados desse estudo? Raquel Rigotto - Nós fizemos um estudo entre 2007 e 2011 na região do perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi e Tabuleiro de Russas, que ficam próximos à divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte. Eles são dois dos 36 perímetros que o DNOCs [Departamento Nacional de Obras contra as Secas] já construiu no Nordeste e hoje esta questão está voltando à cena com uma relevância muito grande porque o Ministério da Integração, através da sua política nacional de irrigação, pretende expandir os perímetros irrigados em mais de 200 mil hectares, além de ampliar os perímetros em torno de 150 mil hectares. Embora a gente tenha estudado apenas dois perímetros, esperamos que ele seja um alerta para essa política de desenvolvimento do Semiárido. Além da contaminação da água, tem uma série de outros problemas como a expropriação de terras dos camponeses, a destruição do modo de vida e do saber tradicional dessas comunidades camponesas, indígenas e de pescadores, a implantação de uma forma de trabalho completamente diferente da que eles tinham antes e uma série de outras dimensões da água, da saúde, da cultura, etc. No caso específico do perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi, as comunidades tradicionais camponesas estão convivendo com empresas do agronegócio que foram instaladas se beneficiando das águas do perímetro e também das águas do Aquífero Jandaíra, que nós temos aqui na nossa região. Um estudo da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará, publicado em 2009, mostrou que das 10 amostras coletadas desse aquífero, em seis foram identificadas presença de agrotóxicos. E no nosso estudo foram coletadas 23 amostras em triplicatas tanto de águas subterrâneas, como as águas dos canais do perímetro de irrigação como água servida às comunidades pelo Sistema de Abastecimento Municipal do Limoeiro do Norte, infelizmente, não encontramos nenhuma amostra isenta de agrotóxicos. Todas elas tinham pelos menos três ingredientes distintos e havia situações em que foram encontradas, em uma única amostra, um verdadeiro coquetel com 12 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos distintos. Então isso é uma situação que tem provocado muito a saúde publica na região e tem incomodado muito as comunidades que já sabiam dessa contaminação. Asacom - Os agrotóxicos estão isentos de vários impostos como ICMS, PIS/PASEP, COFINS e IPI previstos em vários decretos (Convênio nº100/97, Decreto nº 5.195/2004 e Decreto 6.006/2006). Com isso, podemos afirmar que a legislação brasileira favorece o uso desse tipo de insumo químico? Raquel Rigotto - Esse é apenas um dos elementos que comprovam isso porque desde 1997 temos um decreto federal e depois alguns estados ampliaram essa parte da isenção chegando a 100% do ICMS. Então, temos um incentivo legal ao consumo de substâncias tão nocivas para a saúde pública e para o meio ambiente. Se compararmos, por exemplo, com a situação do cigarro e das bebidas alcoólicas, eles têm uma sobretaxação exatamente pelos impactos que trazem para a saúde e o que isso significa de despesas pelo sistema público de saúde. E, no caso dos agrotóxicos, você tem de um lado o consumo estimulado pela isenção e do outro lado você não tem a provisão dos recursos necessários para tratar adequadamente cada um desses casos, diagnosticar, tratar, prevenir, fazer ações de vigilância. Esse é inclusive um dos motivos pelos quais os consumidores perguntam por que os alimentos orgânicos são tão caros. Não é que sejam caros, é que os alimentos convencionais produzidos com agrotóxicos têm sido barateados por esse tipo de incentivo e de outros e mais do que isso a produção deles gera contaminação ao meio ambiente e às pessoas e o custo disso não está embutido no preço do produto. Quem paga essa conta somos nós. Asacom – Nesta quarta-feira (16/10) é celebrado o Dia Mundial da Alimentação. Que dicas/orientações a senhora daria para as pessoas que desejam se prevenir dos riscos dos agrotóxicos e ter uma alimentação mais saudável? Raquel Rigotto - Muitas respostas a essa pergunta vêm sendo construídas no âmbito dos movimentos sociais e das organizações. A gente tem experiência de agricultura urbana em que as pessoas estão cultivando alimentos saudáveis em praças, no seu quintal, na sua varanda, no seu jardim. Nós temos também associações de produtores agroecológicos que disponibilizam seus produtos através de feiras agroecológicas possibilitando que a gente tenha acesso a esse tipo de alimento. Há também alguns cuidados que a pessoa pode ter, um deles, é quebrar o mito de que o tomate mais bonito é o mais saudável. Às vezes, o tomate que tem um bichinho é aquele que eu colho porque isso pode ser um indicador de que ele não tem tanto veneno. Um tomate menor, que não tem aquela aparência maravilhosa que às vezes se espera pode ser muito mais saudável do que aquele que foi produzido com alta carga de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Outra forma da gente se proteger é tentar garantir que o período de segurança entre a aplicação do agrotóxico e o consumo seja respeitado porque muitas vezes os agricultores não respeitam esse período e colhem o produto antes dele estar completado. Então, ele não tem nenhum tempo de sofrer uma degradação química. A gente pode procurar comprar os alimentos enquanto eles ainda estão verdes e deixá-los amadurecer em casa porque aí temos a certeza de que pelos menos enquanto isso, os agrotóxicos podem estar degradando um pouco mais. Uma outra coisa é a higienização dos alimentos. A gente não vai conseguir tirar de cada produto tudo que ele tem de veneno, mas aqueles excessos que estão na casca podem ser retirados com a lavagem adequada, bem feita, com água corrente etc. E também considerar sempre que os alimentos produzidos por grandes empresas, as frutas, os legumes, levam um banho de veneno ante de sair das fábricas. Então lembrar que essas cascas estão muito contaminadas e cuidar das mãos, cuidar do contato dessas cascas com o alimento no prato, na geladeira, porque eles ainda estão portando agrotóxicos. Agora, o fundamental, que todos nós consumidores precisamos fazer é tomar consciência da realidade desse modelo de produção agrícola e fazer tudo que tiver ao nosso alcance pra modificá-lo. Temos que partir pra uma proposta de produção de alimentos que não seja baseada na agroindústria, nas grandes empresas, e que tenha como base a agricultura agroecológica. É isso que seria a solução mais promissora do ponto de vista da humanidade como um todo. |
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